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Energia Nuclear no Brasil: na contramão do bom senso mundial

Victorio Mattarozzi

Entre hoje e 2050 a população mundial passará de 7,2 bilhões para 9,6 bilhões. Toda essa população consumirá mais energia do que o total utilizado em toda a história passada. Os resultados disso são preocupantes, ainda que considerando avanços tecnológicos tornando os sistemas produtivos menos intensivos no uso de energia. Os impactos decorrentes do aumento da poluição e a concentração das emissões de gases de efeito estufa tendem a se agravar, causando sérios danos à saúde das pessoas e ao equilíbrio ambiental do planeta. Quanto ao aquecimento global, talvez se transforme em catástrofe, gerando efeitos climáticos extremos – secas e inundações, perdas de safras agrícolas, esgotamento de recursos hídricos, extinção de espécies, elevação do nível do mar e migrações e epidemias principalmente em países em desenvolvimento.

Diante desse cenário, é fundamental a procura por formas de energia cujo uso não contribua para a concretização desses transtornos. A energia nuclear aparece como uma alternativa adequada, na medida em que não emite carbono, um dos gases causadores do efeito estufa, é capaz de operar dentro de pequenas áreas e seu uso pode ser expandido para o campo cientifico como, por exemplo, na medicina e na esterilização de alimentos. Há, porém, o risco de acidentes e contaminações ambientais, a necessidade de estocar resíduos radioativos (lixo atômico) de forma segura por longos períodos de tempo e a ameaça da proliferação de armas nucleares. Quanto às emissões de carbono, seria preciso considerar o ciclo completo, que inclui várias outras etapas, anteriores e posteriores à operação de uma usina: desde a sua construção, passando pela mineração do urânio e até a sua desativação.

No tocante aos riscos e impactos adversos resultantes da construção e operação das usinas nucleares, há um projeto de cooperação internacional cujo objetivo é desenvolver reatores tecnologicamente mais avançados. O alcance desse projeto é bastante ambicioso: minimizar os impactos ambientais, reduzir o tempo e o custo de construção, atribuir maior segurança operacional e garantir maior controle ao uso e mais proteção a ataques terroristas. Havendo a concretização desse projeto e a consequente viabilidade de reatores dessa novíssima geração tecnológica, analisemos a conveniência da construção de novas usinas nucleares no Brasil.

As fontes de energias renováveis representam 41% da matriz energética brasileira, o que significa enorme vantagem estratégica diante de países que dependem fundamentalmente de fontes não-renováveis como o petróleo e o carvão mineral (combustíveis fósseis). Possuir essa vantagem se torna cada vez mais relevante à medida que os países avançam na direção de um acordo internacional para redução das emissões de carbono. Alcançado esse acordo, pode-se prever que em seguida o conteúdo de carbono dos produtos passará a ser uma importante barreira `ambiental` no comércio internacional.

O consumo de energia no Brasil no período de 2014-2023 crescerá em média 3,7% ao ano, segundo previsão do Ministério das Minas e Energia. Nessa perspectiva e considerando que o mundo caminha para uma economia de baixa emissão de carbono, torna-se imperativo que o país privilegie investimentos para aumentar a capacidade de geração de energia a partir de fontes renováveis: biomassa, eólica e solar. Além disso, há muito por fazer em programas de conservação de energia, substituindo equipamentos industriais e domésticos desperdiçadores por novos mais eficientes. Economizar um quilowatt custa menos que produzir um quilowatt `novo`.

Um fator considerado motivador do uso de energia nuclear seria a segurança energética: um reator nuclear não seria suscetível a interrupções no fornecimento, como é o caso das energias renováveis que são intermitentes e dependem de condições climáticas, estação do ano e insolação. Porém, dificilmente os vários parques eólicos já em funcionamento no país parariam ao mesmo tempo por falta de vento. Quanto à energia solar, recentemente o Ministério das Minas e Energia anunciou que desenvolve um plano para transformar os maiores reservatórios de hidrelétricas do país em grandes ´fazendas´ de painéis solares. A proposta é espalhar milhares de metros quadrados de boias com painéis solares sobre o espelho d´água dos reservatórios das usinas. Quando as turbinas não podem entregar um grande volume de energia por conta da escassez de água, o reforço virá da geração solar sem ocupação de novas áreas e já interligada às linhas de transmissão.

Com relação às energias renováveis, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), a expansão das instalações solares na China e no Japão e os investimentos recordes em projetos eólicos na Europa ajudaram a impulsionar os investimentos globais de 2014 para US$ 270 bilhões, 17% maior com relação aos $ 232 bilhões de 2013. Contornando o desafio dos baixos preços do petróleo nesse período, esse expressivo crescimento de 17% dos investimentos é atribuído principalmente à redução do custo das tecnologias de energia renovável devido às economias de escala. Entre os países em desenvolvimento o Brasil recebeu US$ 7,6 bilhões de investimentos em 2014 (a China lidera, com US$ 83,3 bilhões). Estima-se que as energias renováveis contribuíram para 9,1% da geração de eletricidade mundial em 2014, acima dos 8,5% em 2013.

Quanto à energia nuclear, após o desastre ocorrido na usina japonesa de Fukushima em 2011, a Alemanha decidiu fechar até 2022 todas as 17 usinas nucleares do país e promover a substituição por energias renováveis. Até então, a energia atômica era responsável por 23% da produção energética da mais rica e populosa nação da Europa. O país que tem muito menos sol e vento do que o Brasil tem uma meta audaciosa pela frente: chegar em 2050 com 80% de toda a geração de energia a partir de fontes limpas e renováveis, Para tanto o país deverá investir US$ 710 bilhões. Apesar do Brasil ser um dos países mais ensolarados do mundo, a geração de energia solar sempre foi menosprezada pelo setor elétrico. Somente no fim de 2014, porém, essa situação começou a mudar, quando um primeiro leilão de energia realizado pelo governo contratou, de uma só vez, 31 usinas solares. Estudos feitos pela Empresa de Pesquisa Energética - EPE apontam que o uso pleno do potencial solar do país poderia gerar até 287 mil gigawatts-hora por ano apenas no segmento residencial, o equivale a mais de duas vezes o consumo anual de energia desse segmento.

O Brasil já tem tecnologia para usinas eólicas. A biomassa pode ser uma de nossas grandes possibilidades, inclusive por meio do reflorestamento de áreas degradadas. Energia solar não nos falta. Diante disso, precisamos caminhar na contramão do bom senso mundial e construir mais usinas nucleares para geração de energia, como é o caso de Angra 3? É quase inacreditável que isso possa acontecer sabendo-se que não há solução segura para o problema do lixo radioativo, nem segurança confiável para a operação dos reatores nucleares. Tomemos o caso do acidente da usina de Chernobyl. Passados quase 30 anos do mais grave acidente nuclear da história, está em construção um sistema de confinamento do reator que explodiu – um ´escudo´ para proteger o meio ambiente, conter a ameaça nuclear e lidar com o material radioativo que está lá dentro. Esse escudo deverá custar US$ 1,6 bilhão. Se somados os custos de segurança e descontaminação ao redor, a conta sobe para US$ 2,3 bilhões.
Concluindo, em seu ciclo de vida, a energia nuclear ainda é cara, não comprovadamente segura e não necessariamente limpa. O Brasil não precisa dela.



Referências 


Ambiente Brasil. Reator destruído em Chernobyl ganhará ‘escudo’, 07/04/2015. Disponível em: http://noticias.ambientebrasil.com.br/clipping/2015/04/07/114395-reator-destruido-em-chernobyl-ganhara-escudo.html

BRASIL. Ministério de Minas e Energia. Empresa de Pesquisa Energética. Balanço Energético Nacional 2014 – Relatório Síntese, 2014. Disponível em: https://ben.epe.gov.br/downloads/S%C3%ADntese%20do%20Relat%C3%B3rio%20Final_2014_Web.pdf

Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável. Visão 2050 – A nova agenda para as empresas. CEBDS, 2012. Disponível em: http://cebds.org/wp-content/uploads/2014/02/Vis%C3%A3o-Brasil-2050-2012_pt.pdf


Fundação Getúlio Vargas. Propostas Empresariais de Políticas Públicas para uma Economia de Baixo Carbono no Brasil. FGVces, 2011. Disponível em: http://intranet.gvces.com.br/cms/arquivos/epc2011.pdf


Globo.com. Governo alemão decide eliminar energia nuclear até 2022, 30/05/2011. Disponível em: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2011/05/governo-alemao-decide-eliminar-energia-nuclear-ate-2022.html

NOVAES, Washington. A Década do Impasse: da Rio 92 à Rio+10 – São Paulo: Estação Liberdade e Instituto Socioambiental, 2002.

Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Energia renovável recebeu 17% mais investimento em 2014 - PNUMA Brasil, 31/03/2015. Disponível em: http://pnuma.org.br/noticias_detalhar.php?id_noticias=1665

VEIGA, José Eli; GUIMARÃES, Leonam dos Santos; MATTOS, João Roberto Loureiro; GOLDEMBERG, José; LUCON, Oswaldo. Energia Nuclear: do anátema ao diálogo – São Paulo: Editora Senac, 2011.

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